Sem estrutura náutica adequada para a navegação e com pontos turísticos às suas margens completamente abandonados, o GDF deixa o setor náutico de lado, mais uma vez.

O Governo do Distrito Federal (GDF), por meio do Departamento de Estradas de Rodagem do DF (DER), deu início a um dos maiores investimentos dos últimos anos. Em novembro, foi publicado o Edital de Concorrência Eletrônica nº 90028/2025, que trata da contratação de empresa especializada para a implantação da nova ponte da Barragem do Paranoá e do sistema viário associado sobre a Estrada Parque Contorno (DF-001).
rata-se, sem dúvida, de uma obra relevante para a mobilidade da capital federal, especialmente diante da realidade crítica do trânsito naquela região, com potencial para melhorar significativamente a circulação dos ônibus do transporte público, que hoje levam horas para cumprir percursos relativamente curtos entre as cidades naquela região. É de conhecimento geral que o transporte público no Distrito Federal é deficiente e incapaz de atender, de forma satisfatória, uma população que já ultrapassa 3 milhões de habitantes, distribuídos em 35 regiões administrativas e com uma extensa zona rural. Em uma capital onde cerca de 80% dos deslocamentos dependem desse modal, o caminho adotado tem sido o investimento em vias, pontes e viadutos. Ainda assim, o projeto escancara um velho paradoxo brasiliense: o avanço do concreto e do asfalto sobre um lago que permanece abandonado, sem políticas efetivas de integração urbana, ambiental e turística.

O turismo náutico no DF, transporta cerca de 20 mil passageiros por mês, entre passeios, festas e serviços de charter, conforme o presidente da Asbranaut, João Carlos Bertolucci (foto – Divulgação)
A nova ponte representa mais um agregado viário sobre o Lago Paranoá, que há décadas sofre com a ausência de infraestrutura adequada para o uso turístico, recreativo e náutico. Embora o governador demonstre intenção de valorizar o potencial do lago — que abriga hoje a quarta maior frota náutica do Brasil — a inércia de secretarias diretamente ligadas ao turismo impede que projetos estruturantes avancem.

Governador Ibaneis Rocha e o presidente da Asbranaut, João Carlos Bertolucci – crédito – Asbranaut
Em 2022, a Secretaria de Projetos Especiais publicou o Edital PMI nº 003/2022 com o objetivo de viabilizar a construção de uma Marina Pública no Lago Paranoá. O projeto foi vencido pela Associação Náutica, Esportiva e do Turismo de Brasília (Asbranaut), mas, passados mais de três anos, o resultado oficial sequer foi publicado no Diário Oficial do DF. O travamento do processo levanta questionamentos sobre interesses internos e ajuda a explicar por que nada avança no setor náutico do lago.
Hoje, o turismo náutico do Distrito Federal transporta cerca de 20 mil passageiros por mês, entre passeios, festas e serviços de charter. Ainda assim, não existe um único local tecnicamente adequado para embarque e desembarque de passageiros. O único ponto utilizado para essa finalidade é o muro de arrimo do Pontão do Lago Sul, estrutura improvisada, insegura e completamente inadequada para essa função.

Projeto vitorioso da Marina Pública do DF, realizado pela Asbranaut em 2022, PMI 003. (Travado na Secretaria de Projetos Especiais)
A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) estabelece critérios claros para a construção de píeres e trapiches destinados ao embarque e desembarque de passageiros. As normas exigem segurança estrutural, guarda-corpos, corrimãos, pisos antiderrapantes, iluminação, sinalização e, sobretudo, acessibilidade plena, com rampas adequadas, plataformas niveladas e proteção para crianças, idosos e pessoas com deficiência.
A Marinha do Brasil, por meio das Normas da Autoridade Marítima (NORMAM) e da fiscalização da Capitania Fluvial de Brasília, também define regras rigorosas para a implantação e operação dessas estruturas, incluindo aprovação prévia de projetos, balizamento náutico, luzes de navegação e condições seguras para o transporte coletivo de passageiros. Nada disso é observado atualmente no Lago Paranoá.

Trapiches abandonados e estrutura precária nas margens do Lago Paranoá (foto – Asbranaut)
O abandono se estende à Orla JK, na cabeceira norte da Ponte JK — hoje reconhecida como Monumento Turístico da Capital Federal. O local, de grande beleza cênica, apresenta um cenário de desordem, com dezenas de ambulantes sem padronização, ausência de fiscalização sanitária e manipulação precária de alimentos, expondo moradores e turistas a riscos.
A segurança da navegação é outro ponto crítico. Com mais de 40 embarcações de transporte de passageiros em operação — algumas com capacidade superior a 200 pessoas — o tema deveria ser prioridade absoluta. Tragédias como o naufrágio do barco Imagination, em 2011, que deixou nove mortos, não podem ser tratadas como um capítulo encerrado da história.
Em todo o espelho d’água do lago, inexiste sinalização adequada por boias de demarcação, essenciais para separar áreas de banhistas, esportes náuticos e navegação. Também faltam sinalização e luzes de navegação em trapiches de marinas e clubes, e muitas rampas, em desacordo com as normas da Marinha.
Na região da Concha Acústica, os trapiches estão destruídos, a orla tomada por barracas improvisadas e o espaço passou a ser utilizado como doca informal para construção de embarcações. Soma-se a isso a ocupação irregular por motorhomes abandonados, formando um cenário que lembra um ferro-velho a céu aberto em um dos principais cartões-postais da cidade.
Nesse contexto, ninguém ganha. O comerciante trabalha de forma precária, o usuário se expõe a riscos, o turista se decepciona e leva uma imagem negativa de Brasília para o Brasil e o mundo — um contrassenso para uma cidade reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.
Enquanto isso, o governo se prepara para investir R$ 709 milhões em mais um agregado viário sobre o lago. Bastaria uma meros 10% desse valor para estruturar o setor náutico, com trapiches seguros, marinas públicas, sinalização adequada e ordenamento turístico. Resta saber se, além do concreto, o Lago Paranoá receberá o respeito e o planejamento que sua importância exige.










