Categoria: Paulo Cesár Timm

  • Que país é esse…?

    A pergunta “Que país é esse?” não é nova, tampouco pertence exclusivamente a um autor ou a um momento específico da história brasileira. Imortalizada na canção da Legião Urbana, escrita por Renato Russo em 1978 e lançada em 1987, a indagação atravessou décadas como um grito de inconformismo diante das desigualdades, dos abusos de poder e das contradições do Brasil. Mais tarde, Cazuza também ecoaria esse questionamento em sua música “Brasil”, inspirada na mesma inquietação, retratando o abismo entre pobres e ricos e a sensação de abandono social.

    Passados tantos anos, a pergunta segue atual e perturbadora. Analistas da grande imprensa, em diferentes veículos, demonstram indignação ao observar um país em que a punição a golpistas convive com parte do eleitorado disposta a relativizar a democracia; em que comportamentos autoritários são naturalizados; e em que cenas simbólicas, como pessoas ajoelhadas rezando para um pneu, revelam um cenário de perplexidade coletiva. Os números reforçam esse quadro alarmante: quase 45 mil assassinatos por ano, cerca de 35 mil mortes no trânsito, cidades brasileiras entre as mais violentas do mundo e o crescimento acelerado das favelas, que hoje abrigam milhões de cidadãos.

    Diante desse retrato, o autor amplia o questionamento e o transforma em uma sequência de indagações que escancaram a brutalidade cotidiana. Que país é esse em que operações policiais resultam em dezenas de mortos em um único dia, com policiais também vitimados, enquanto outros são flagrados cometendo crimes? Que país é esse que figura entre as maiores economias do planeta, mas mantém milhões de pessoas na miséria, quase cem milhões sobrevivendo com um dos menores salários mínimos da América do Sul e dezenas de milhões sem perspectivas claras de trabalho?

    A lista segue com episódios de extrema violência e desumanização: crimes bárbaros contra crianças, feminicídios em números alarmantes, tragédias familiares provocadas por ódio e intolerância, além de escândalos envolvendo grandes sonegadores que escapam impunes. Soma-se a isso a presença de líderes religiosos que ameaçam os mais vulneráveis e figuras expulsas das Forças Armadas que, paradoxalmente, ascendem como referências políticas.

    Ao repetir insistentemente a pergunta “Que país é esse?”, o texto não busca uma resposta simples, mas provoca reflexão. Trata-se de um grito de indignação, um convite à consciência crítica e um alerta: enquanto essas contradições persistirem, a pergunta continuará ecoando — incômoda, urgente e necessária.

  • A queda do master e o perigo de atingir o GDF

    A queda do master e o perigo de atingir o GDF

    *Paulo César Timm – economista, professor aposentado Universidade de Brasília (UNB) servidor aposentado do Instituto de Pesquisas Aplicadas (IPEA)

    Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal (crédito: Agência Brasília)

    Há muita confusão conceitual sobre a origem e natureza do sistema capitalista. Para mim, o capitalismo nasce nos primeiros bancos da Itália, século XV, quando o dinheiro se converte, de meio de troca em meio de vida – e enriquecimento – aos que o controlam. No começo, dadas as restrições morais da Igreja à usura, foram os judeus que, paulatinamente foram expandindo as redes bancárias mundo afora. Oportuno lembrar que tais restrições têm raízes muito antes de Cristo, como no Código de Hamurabi. Mas os tempos mudaram, a introdução do papel moeda flexibilizou as restrições à usura e os bancos se multiplicaram. Cresceram tanto que, já ao final do século passado, e sobretudo, depois da liberação à movimentação eletrônica dos capitais no mercado mundial, suas transações ultrapassaram os valores do comércio mundial e da própria produção. Hoje vivemos sob a bolha do Capitalismo Financeiro. Quer ficar rico? Entre para alguma empresa do ramo financeiro, aprenda as regras do “mercado”, mesmo como empregado aí encontrará os mais altos salários e, se for esperto, comece abrindo uma Financeira, depois uma Fintech, e depois, um Banco. Foi o que fez um latino-americano, “sem dinheiro no bolso”, mas muita ambição e poucos escrúpulos,  Daniel Vorcaro, ao criar o Banco Master.

    Moço bem apessoado, educado, frequentador de salões sociais e políticos, ligado aos evangélicos Vorcaro  correu, primeiro, atrás de clientes privados e, em seguida, percebeu que os clientes “públicos”, a saber agentes do Estado, davam muito mais resultado. Bastava, para isso, chegar-se a influentes figuras dos Poderes Federais, inclusive Judiciário, com atrativos contratos de consultoria a ex ministros – e juízes aposentados -, aí despontando o deputado Ciro Nogueira, Presidente do PP, ex Chefe da Casa Civil de Bolsonaro, amigo de governadores importantes do Rio de Janeiro e Distrito Federal. Como registra o jornalista investigativo Andrei Meirelles:

    “Vamos começar puxando penas para achar as galinhas e as raposas. (….) Ciro Nogueira e o governador de Brasília Ibaneis Rocha, além de piauienses, têm, entre outras coisas em comum, a escolha de Paulo Henrique Costa, o PH, para presidir o BRB, o banco público de Brasília. (…) A versão mais corrente em Brasília é de que Flávia Arruda ( hoje Flávia Peres, casada com Augusto Ferreira Lima), procurou Ciro Nogueira ( com quem dividiu a articulação política no governo Bolsonaro e o governador Ibaneis Rocha para usarem a influência sobre PH para ajudar o Banco Master a escapar da falência. Pelo comportamento, durante e até o estouro do escândalo, essa versão tem início, meio e fim coerentes com os comportamentos de Ibaneis e Ciro Nogueira.

    Ibaneis foi à luta em defesa da mega mutreta. Conseguiu apoio da Câmara Distrital, em que tem ampla maioria, e atacou quem questionava a compra pelo BRB dos títulos podres do Banco Master, inclusive o Banco Central, de serem adversários de Brasília.”

    Semana passado tudo ruiu. O Banco Central “acordou” para o fechamento do Banco Master,  Vorcari foi preso, já prestes a fugir do país num dos seus jatinhos executivos, Brasília entrou em pânico. Só o tempo dirá sobre o tamanho do rombo, provavelmente na ordem de R$ 20 bilhões, e da responsabilização de todos os que contribuíram para o festim. Certamente apresentarão Atestados Médicos para garantir cumprimento das penas em casa e seus respectivos patrimônios já terão sido pulverizados. Aqui no D.F. , entretanto, dificilmente o Governador Ibaneis, que escapou do 8 de janeiro, prosseguirá sua meteórica carreira.

    Paulo César Timm – Economista, professor aposentado da Universidade de Brasília, servidor aposentado do Instituto de Pesquisas Aplicadas (Ipea)