Como pesquisadora abandonou militância de direita para votar em Lula

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A pesquisadora Michele Prado, 43, é autora do livro "Tempestade ideológica" - Foto: Arquivo Pessoal

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Michele Prado se dizia de direita. Foi às ruas pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT) e votou em Jair Bolsonaro (PL) no 2º turno das eleições de 2018. Assistiu de camarote à ascensão do bolsonarismo, em grupos dos quais fazia parte nas redes sociais, e diz que o voto em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é hoje o único caminho para evitar o avanço da extrema direita no país.

“É a coisa mais fácil do mundo você entrar para uma comunidade com crenças extremistas e se radicalizar sem perceber. E eu vi isso de perto”, diz Prado.

Autora do livro “Tempestade Ideológica — bolsonarismo: a alt-right e o populismo i-liberal no Brasil” (Lux, 2021), Michele atualmente se considera de centro. No livro, ela apresenta uma visão de dentro sobre como atuam os grupos direitistas no país.

Aos 43 anos, relata ter sido extremamente ativa em fóruns e discussões da direita, desde o Orkut (rede social de ampla adesão dos brasileiros e que funcionou entre 2004 e 2014) até grupos de WhatsApp bem atuantes na eleição de Bolsonaro em 2018.

“Passei por um processo de desradicalização”, conta ela. Foi entre 2018 e 2019, já nos grupos de WhatsApp, que percebeu “uma escalada de ódio” e disse ter lido mensagens em defesa de golpes institucionais. Quando tentou questionar isso internamente, afirmou não ter recebido nenhuma abertura para apresentar qualquer ponto de vista que fosse diferente.

Me taxaram de louca, histérica… Falaram que eu estava viajando, que via fascismo em tudo.”

Designer de interiores, passou a pesquisar por conta própria o fenômeno de ascensão da direita pelo mundo e enfrentou uma enxurrada de xingamentos daqueles com quem, até então, identificava-se ideologicamente. Foi quando decidiu alertar outras pessoas sobre como funcionam os grupos da extrema direita no país.

“Eu fui xingada de puta pra baixo, menina!”

No início, conta, a agressividade não era tão clara entre os grupos. “É assim que começa a cooptação deles, é aos poucos”. Como exemplo de atuação nas redes, relata que no Facebook ela participava de um grupo que convocava militantes para “dar risadas” em posts de esquerdistas nas redes sociais.

Eram milhares de pessoas comentando “ha-ha” [abreviação de risadas], inundando aquele feed de comentários que nem pareciam inofensivos, mas incomodavam. Na época eu não sabia que isso era uma técnica da alt-right.”

Prado explica que a alt-right (abreviação de alternative right, que significa “direita alternativa” em português) reúne a direita radical e a extrema direita. A diferença entre elas é que a última busca uma “ruptura institucional”.

“A direita radical ainda consegue viver numa democracia liberal. Mas a extrema direita não, ela é antidemocrática”, observa.

Para ela, o bolsonarismo é intimamente ligado à alt-right e fruto da propagação de correntes de direita por todo o mundo, em especial nos Estados Unidos. O modelo, explica, foi importado ao país pelo escritor e astrólogo Olavo de Carvalho, um dos gurus da direita brasileira.

Alunos de Olavo, os “olavetes”, passaram a ganhar destaque nas redes e a indicar postagens uns dos outros para os seus seguidores. “Virou uma confraria”, conta Prado, que detalha como a bolha direitista passou a ser cada vez mais fechada.

Segundo ela, primeiro os influenciadores reuniam diversos grupos para criticar o PT. Aos poucos, introduziam outros temas, como críticas às cotas raciais.

“A maioria não fala explicitamente que é contra as cotas raciais. Eles vão pelas beiradas. Primeiro dizem que quem defende cota racial é ‘anti-branco’, depois falam em biodiversidade humana, que todos são diferentes e por isso todos devem ser tratados igualmente. E aí concluem que determinadas raças e etnias não podem ter leis diferentes das leis dos outros.”

A estratégia também inclui postagens orquestradas, onde vários influenciadores divulgam opiniões semelhantes sobre um mesmo tópico com poucas horas de diferença nas redes sociais. O objetivo, diz Prado, é manter viva a discussão e replicar apenas as mesmas visões, uma estratégia chamada “câmara de eco” por pesquisadores.

“Quando se vê dois influenciadores falando a mesma coisa, por mais estranho que seja o que estão falando, quem vê de fora já começa a achar que houve uma legitimação ali. E isso faz com que achem que só pode estar correto o que eles disseram.”

Sem chance para a 3ª via

Com a polarização cada vez mais forte entre Bolsonaro e Lula, Michele Prado afirma que não há como escapar de escolher entre apenas um dos dois: “Não dá mais tempo de investir em uma terceira via”.

Pela primeira vez em seus 43 anos, conta, votará no PT. E a escolha de Geraldo Alckmin (PSB) como o vice de Lula teve forte peso sobre a sua decisão.

“Me ajudou muito, porque, olha só, eu sempre votei no PSDB e sempre achei o Alckmin um ótimo candidato, um ótimo político.”

Ela afirma que admira que Lula e Alckmin tenham selado uma aliança “em prol de um projeto para o país” após anos de polarização entre PT e PSDB, o antigo partido de Alckmin.

Defensora de que o país abrace projetos de desradicalização, como faz a ONG americana “Life after Hate” (em português, “a vida depois do ódio”), alerta que o processo depende de um acolhimento e critica uma ala da esquerda que não apoia a união com ex-bolsonaristas.

“É difícil sair de um grupo desses, onde você tem a sensação de pertencimento, porque aí você pode ser atacada por este mesmo grupo e ainda ser esculachado pelo outro.”

Assassinato em Foz: tragédia anunciada

“Desde 2020 eu tinha certeza de que a tendência era piorar a radicalização e que a gente teria atentados de terrorismo doméstico da extrema direita no Brasil”, diz ela em referência ao assassinato de um petista por um bolsonarista no sábado (9) em Foz do Iguaçu (PR).

Uma reportagem da DW mostra como os perfis de Jorge Guaranho, autor do crime em Foz, tratavam pouco de política antes de 2018 e passaram a apresentar postagens cada vez mais radicais após a eleição de Bolsonaro.

“Essa reportagem mostra a linha do tempo, as pegadas digitais desse rapaz, que é o que a gente faz quando a gente está estudando o extremismo”, afirma ela. A radicalização, explica Prado, aumentou muito durante a pandemia de covid-19 por causa do maior tempo gasto na internet.

Um levantamento da antropóloga Adriana Dias, pesquisadora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) indica um crescimento de 270,6% de grupos neonazistas no Brasil entre janeiro de 2019 e maio de 2021. Outra pesquisa, feita pela Safernet, aponta um aumento de 60,7% de denúncias sobre neonazismo na web no país entre 2020 e 2021.

O extremismo não é só a morte violenta, viu?”

“O extremismo se materializa em políticas públicas, onde você exclui e persegue grupos. Ou volta uma lei, como aconteceu agora nos Estados Unidos com o aborto”, diz ela.

Michele lançará mais um livro sobre o tema (“Red Pill: Radicalização e Extremismo”). Preocupada com os rumos do país, diz temer que a ascensão direitista e o extremismo se tornem caminhos sem volta no Brasil.

A radicalização online já virou epidêmica.”

Fonte: UOL.com

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