Acidente no Rio Grande expõe perigo oculto nas águas do Paranoá e Corumbá IV: ASBRANAUT alerta autoridades

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Trapiches abandonados às margens do lago Paranoá ligam alerta, após acidente no Rio Grande (MG) com seis vítimas fatais – Foto- Bertolucci

Uma tragédia que marcou o último fim de semana acendeu um sinal de alerta vermelho para a segurança da navegação em águas interiores brasileiras. Na noite de sábado, 21 de fevereiro, uma lancha que navegava no Rio Grande, na divisa entre Minas Gerais e São Paulo, nas imediações de Sacramento, colidiu contra um piér sem qualquer iluminação. O impacto foi devastador: seis pessoas morreram, incluindo a mãe e uma criança de apenas quatro anos de idade. Entre as vítimas estava o próprio piloto, que não possuía habilitação náutica (Arrais-Amador), conforme apurado pelas autoridades. O acidente ainda deixou vários passageiros feridos e chocou familiares e comunidades ribeirinhas que frequentam o rio nas horas de lazer.

O episódio, além de uma dolorosa perda de vidas, evidencia um problema recorrente que não é exclusivo da região sul de Minas: a presença de obstáculos não sinalizados em vias navegáveis interiores e o uso imprudente de embarcações durante a noite. “A falta de iluminação e de autorização da Marinha para estruturas como pieres e trapiches expõe quem navega, seja para lazer ou trabalho, a perigos evitáveis e potencialmente fatais”, afirma o presidente da Associação Náutica, Esportiva e do Turismo de Brasília (Asbranaut), João Carlos Bertolucci, que vem alertando as autoridades marítimas sobre esses riscos.

O passado sombrio de Brasília: quando o Lago Paranoá virou cena de um naufrágio

O alerta traz à memória um dos episódios mais dramáticos da história recente de Brasília. No dia 22 de maio de 2011, uma embarcação de turismo denominada Imagination, com capacidade autorizada para transportar até 93 pessoas, navegava no Lago Paranoá durante a noite quando afundou e deixou pelo menos nove mortos, incluindo um bebê de seis meses. A embarcação virou a cerca de 1 km da margem, e dezenas de pessoas tiveram que ser resgatadas das águas escuras do lago. Os relatos da tragédia apontaram para a possibilidade de superlotação e para a falta de condições adequadas de operação e segurança, apesar de o lago ser um dos principais pontos de recreação aquática da capital federal.

O alerta foi  feito pelo presidente da Associação Náutica, Esportiva e do Turismo de Brasília – Asbranaut -, João Carlos Bertolucci – foto – Divulgação.

Esse episódio marcante, ocorrido a menos de uma década e meia, mostra que o perigo de acidentes graves em represas e lagos interiores não é mera hipótese. A tragédia de 2011 deixou claro que embarcações comerciais ou recreativas, mesmo quando aparentemente seguras, podem se tornar letais em condições inadequadas de navegação noturna, superlotação e falta de sinalização adequada no entorno dos obstáculos aquáticos.

Perigo oculto no Lago Paranoá: estruturas abandonadas e pieres sem sinalização

A realidade vivida em Brasília hoje pode estar caminhando para uma versão diferente, mas igualmente perigosa, do mesmo problema. Nos últimos anos, com a desobstrução da orla do Lago Paranoá e o recuo compulsório das construções às margens para garantir acesso público, muitos proprietários de trapiches retiraram apenas as tábuas de piso dos pieres, deixando as estruturas verticais submersas ou semi-submersas sem qualquer iluminação ou sinalização náutica. Essas estruturas abandonadas, agora se tornaram verdadeiras armadilhas para embarcações que navegam à noite nas proximidades das margens.

Condições precárias dos pieres no ponto turístico Concha Acústica – foto: JCBertolucci 

       Segundo o presidente da Asbranaut, João Carlos Bertolucci, “a ausência de sinalização e iluminação em estruturas obsoletas ao longo do Paranoá representa um risco iminente de acidentes graves ou fatais, especialmente quando associada à navegação recreativa após o pôr do sol”. A entidade já oficializou alertas à Capitania Fluvial de Brasília,  instando por inspeções, remoção ou regularização dessas estruturas e pela implementação de um sistema de iluminação e marcação náutica que possa prevenir colisões, acidentes e perdas de vidas.

Além disso, o Lago Paranoá concentra centenas de pieres pertencentes a clubes, hotéis e residências que devem ser fiscalizados pela autoridade marítima competente. Em muitos casos, alguns deles, sequer dispõem de iluminação de navegação, tornando quase invisíveis obstáculos potencialmente fatais quando acima do espelho d´água ou semi-submersos após o anoitecer.

Risco similar em Corumbá IV: águas goianas também carecem de regulação

Não é apenas Brasília que enfrenta esse cenário de riscos ocultos. No Lago de Corumbá IV, em Goiás, região que também recebe intensa navegação recreativa durante fins de semana e feriados, em decorrência das centenas de condomínios. A maioria deles construíram trapiches e pieres às margem da represa sem apresentar projetos à Capitania Fluvial do estado e sem garantir sinalização adequada para navegação noturna. Essas estruturas improvisadas multiplicaram potenciais pontos de impacto para embarcações que trafegam em velocidade ou com pouca visibilidade.

A falta de regulamentação, fiscalização e iluminação dessas estruturas, combinada com a crescente ocupação náutica dos lagos interiores, cria um cenário propício para acidentes graves, alguns possivelmente com consequências tão trágicas quanto o ocorrido no Rio Grande ou até mesmo como os episódios históricos em Brasília”, ressalta Bertolucci. Ele reforça que, sem medidas urgentes de ordenamento e fiscalização, não apenas a segurança de lazer será comprometida, mas vidas poderão ser ceifadas em águas que deveriam ser de convivência e recreação.

Ação e responsabilidade: um chamado à autoridade marítima

Diante dos fatos, a Asbranaut tem intensificado seus esforços de comunicação com as Marinhas de Brasília e Goiás, exigindo que sejam tomadas providências como:

  • inspeção sistemática de todas as estruturas de apoio à navegação (pieres, trapiches e atracadouros);
  • obrigatoriedade de projetos aprovados e certificados pela autoridade marítima;
  • instalação de sistemas de iluminação e sinalização náutica conforme normas;
  • campanhas educativas para usuários de embarcações de recreio;
  • fiscalização intensificada da habilitação de condutores de embarcações recreativas.

A tragédia no Rio Grande, a memória dolorosa do naufrágio de 2011 no Lago Paranoá, e o cenário hoje presente nos lagos do Centro-Oeste servem como um alerta urgente: sem medidas concretas de segurança, fiscalização e regulação rigorosa, a próxima grande tragédia pode estar apenas a uma noite de distância – entre o brilho de uma festa e as águas escuras que escondem perigos invisíveis, muitas vezes, improvisados.

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